Causos ferroviários
Total de causos:  7

Última atualização: 28/12/2012
Os causos incluídos por último aparecem primeiro

Aqui contamos causos ferroviários. Para muitos um ''causo'' é uma historieta engraçada, às vezes verídica, às vezes inventada, às vezes aumentada. Os causos do Portal do Trem são histórias verídicas, muitas delas engraçadas (mas nem sempre), ocorridas na vida de ferroviários brasileiros. Conhece algum causo? Que tal contar para os outros?

Aquelas histórias engraçadas, mas sem um fundo de verdade, aparecem numa secção que vale a pena conhecer: "Piadas".

Quando nos enviar um causo, lembre-se de que sempre é bom ser específico: qual ferrovia? qual cidade? qual o cargo do funcionário envolvido? quando aconteceu? etc. Isso tornará seu relato mais interessante. Escreva para o editor desta página.
''O bento''

O maquinista português da CMEF (Companhia Mogiana de Estradas de Ferro) notou que o poste do telégrafo havia caído e impedia a linha. Foi ao telégrafo mais próximo e ditou o recado ao telegrafista:

— O bento derrubou o poste.

O telegrafista, espantado, virou para ele:

— Mas bento não derruba poste.

Imperturbavelmente, o português explicou:

— Bento do aire!!!

(Postado em 28/12/2012; encontrado na internet)
Os trilhos invisíveis de Santos

Hoje à tarde andava eu, não mais que de repente, pelo centro de Santos, quando meus pensamentos foram bruscamente interrompidos por um motorista que desejava estacionar seu caminhão:

— Por favor, aqui passa bonde?

Pra encurtar a conversa, fui logo falando que não. Mas ficou uma vontade de ter dado uma resposta mal-criada, dizendo que bastava apenas olhar para o chão para saber se o bonde passava ou não por lá...

Parece que o pessoal esqueceu que o bonde (pelo menos os de verdade) não anda fora dos trilhos. Se bem que, bom, sei lá, no Brasil tudo é possível!

(Fato datado de 21 de março de 2012)

(Postado em 27/03/2012; colaboração de Antonio Augusto Gorni)
A Maria Fumaça da ALL

Eu tenho uma sobrinha que mora em Campinas e trabalha em Hortolândia. Um dia ela me contou que via a Maria Fumaça todo dia. Aí, na minha ingenuidade, perguntei, ''Você passa perto de Anhumas todo dia?''. Afinal, Anhumas não fica tão distante de Hortolândia e é a estação inicial da Viação Férrea Campinas-Jaguariúna, a ferrovia turística operada pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), a qual possui muitas locomotivas a vapor. Mas, para meu espanto, ela respondeu, ''Não. É em Hortolândia. São umas máquinas grandes, vermelhas, com 'ALL' escrito bem grande nelas, soltando uma fumaça danada...''

(Postado em 09/03/2012; colaboração de Antonio Augusto Gorni)
Proesas do Sr. Pinheiro (Um chapeu na linha faz parar o expresso - Na cadeia)

O Sr. José da Silva Pinheiro, portuguez, passageiro do expresso de Uberaba, quando viajava hontem para esta cidade, entendeu que o calor e o ar viciado do modesto vagão de 2ª classe em que vinha, muito o muito o encommodavam.

Bem que pensou nas delicias de um ventilador electrico, e em ultimo caso um carro de primeira classe, mas ... Não levou em paciência e arriscou metter a cabeça pela janellinha do seu comboio, affrontando mesmo u poeira que levantava o expresso na sua vertiginosa carreira.

E lá se ia o nosso homem a gosar a frescura do vento que soprava, alongando a vista pela paysagem que se lhe apresentava aos olhos.

Eis senão quando um incidente veiu perturbar-lhe o prazer mal começado. Uma rajada mais forte de vento, arrebata-lhe o chapéu. Acto continuo, Pinheiro, que não se deu por achado, recolhe-se ao vagão, alça o braço e, em forte puchão na corda de aviso faz parar o trem, com grande pasmo dos viajantes e maior susto do machinista, que já supunha tratar-se de um desastre.

Verificando o facto, o trem continua a sua carreira e José Pinheiro veiu chorar a sua imprudência na cadeia desta cidade, visto não possuir a importância correspondente á multa regulamentar que lhe foi imposta pela estrada por essa irregularidade.

O inoffensivo José Pinheiro queria apenas apanhar o seu chapéu ...

(Notícia publicada publicada em 13 de novembro de 1913 no Diário da Manhã, de Ribeirão Preto, SP. Respeitada a grafia original. Imagem do recorte do jornal no blog de 14/12/2011.)

(Postado em 12/12/2011; colaboração de Denis W. Esteves)
Vida de telegrafista

A vida é engraçada, às vezes triste, às vezes alegre. O tempo passa, e a saudade dos dias idos nos faz cismar e imaginar o quanto já fomos úteis e também que deixamos de ajudar pessoas que precisavam de nossa ajuda. Como hoje o tempo está macambúzio, aquele chove não molha, sai não sai, o sol e as nuvens teimam em nos dar aquela sensação de medo de não sei o quê, comecei a me lembrar de um passado distante, quando trabalhava na ferrovia.

Os correios de antanho, usavam muito o telégrafo da ferrovia, principalmente para as estações de roça, e naqueles locais o telegrafista ou o portador (trabalhador braçal) era quem fazia as entregas. Também tínhamos a loteria federal e a mineira, e todas as terças, quartas e sextas-feiras, às 17 horas, quem estava de plantão no telégrafo já sabia que tinha serviço dobrado. Era a hora de transmitir o telegrama dos bilhetes não vendidos. Nada era mais odiado no trabalho que esta transmissão. Ficávamos no telegrafo aproximadamente meia hora transmitindo aquele interminável ''jornal''.

Também tinha notícias boas, alegres, como a de um parente que avisava a hora e o dia de sua chegada, o nascimento de uma criança. Ainda hoje, quando me lembro dessas coisas, sinto uma dor muito funda de uma notícia que recebi no telégrafo e que me deixou durante muito tempo com o coração sangrando. Eu estava numa estação de roça, mais precisamente em Júlio Tavares, no lado paulista da divisa de Minas com São Paulo, estação esta que ficava entre Guaxupé e Moreira Sales, substituindo o telegrafista, que gozava suas merecidas férias. Era meu ultimo dia de substituição e estávamos na plataforma conversando com o chefe, o portador e o telegrafista que chegara havia pouco no trem de passageiros PP2, quando o telégrafo começou a chamar — pipipi pipi pipipi pipi pipipi pipi pipipi pipi pipipi pipi. Levantei de onde estava sentado e fui atender ao chamado. Pipipi pipi (teclei) e do outro lado da linha pipipi pipi. Veio a letra .–. (P), que significava significava telegrama. Peguei o lapis e o bloco e teclei .. (I), que significava que podiam começar a transmitir. pipipi pipi pipipi pipi pipipi pipi pipipi pipi pipipi pipi pipipi pipi pipipi pipi. Fui anotando tudo.

De cara, já fiquei meio assustado pois a mensagem era dirigida ao telegrafista que eu estava substituindo, e o texto dizia ''... venha urgente pt sua mãe sofreu acidente pt ...".

Ao receber a noticia, meu colega ficou petrificado, sem reação alguma. Estávamos aproximadamente a 12 quilômetros de Guaxupé. Naquela hora não tinha trem, automóveis não existiam, a ida dele era reclamada com urgência, e o primeiro trem só iria passar no finalzinho da tarde, ou seja, iria demorar pelo menos seis horas. O que fazer: enfrentar o trecho na sola do botinão? Por incrível que pareça, o local mais próximo que poderia nos dar socorro ficava na fazenda, a uns 3 quilômetros de distância. Pensávamos em como fazer para ajudar nosso amigo, quando o portador chegou e disse que tinha uma bicicleta e que, se eu não importasse, ele levaria o colega na garupa até a fazenda, onde conseguiria um cavalo

para que o levasse até Guaxupé. Homem liberado, lá foram os dois, e o desfecho todos já podem imaginar: sete dias de luto.

Ser telegrafista naquela época tinha suas compensações. Era igual a maquinista, só que levávamos uma vantagem, pois o maquinista passava com o trem apitando, as mocinhas ficavam suspirando, mas eles iam embora rapidinho. Já nós, os telegrafistas, éramos paquerados e não raro dessa paquera nascia um namoro.

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(Chico Marques foi ferroviário da CMEF [Companhia Mogiana de Estradas de Ferro] e é um dos "Amigos da Linha")

(Postado em 27/11/2011; colaboração de Chico Marques)
Piquenique

Fomos eu, a Tina, o meu irmão Carlos e sua esposa, fazer um piquenique nas margens da Rodovia Raposo Tavares, onde naquela época "havia" espaços próprios com mesas e bancos de concreto, para o povo se divertir.

Preparamos tudo: a minichurrasqueira, os comes e bebes, o carvão; e partimos para a diversão, mas saímos tarde e não encontramos mais nenhum lugar vazio onde pudéssemos nos "espalhar"...

Continuamos na estrada, até avistar um pequeno córrego com as margens gramadas e limpas. Local perfeito!

Armamos a churrasqueira, acendemos o carvão e colocamos a linguiça "pra queimar" e fomos cuidar do restante.

De repente, "Oh! azar!", pensamos. Começou a chover e a churrasqueira acesa a "todo vapor"; era hora de correr.

Recolhemos tudo, mas e a churrasqueira?

— Ah! Vai no porta malas do Monza mesmo, é rápido até o viaduto da ferrovia.

Agora, lembrando do caso, penso no perigo, pois ao dirigir até os trilhos da ex-Sorocabana, (linha tronco Mairinque/Santos) íamos escutando o frigir da linguiça . . .

Saímos da estrada e estacionamos sob o viaduto da Raposo Tavares, ao lado da linha férrea, e continuamos o nosso complicado piquenique.

Demos sorte de ferreomodelista: após 10 ou 15 minutos lá vem o trem; uma trinca de U20 da Fepasa, tracionando mais de 50 vagões, sentido Santos, e foi o maquinista quem nos avistou primeiro, pois foi um buzinaço só.

Eita coisa boa! Foi uma festa completa: nós com os espetinhos na mão e o ajudante "todo marrento", com o pé na janela, acenando e tomando Coca-Cola no gargalo da garrafa de 2 litros e a composição passou por nós buzinando até ensurdecer.

Fatos que não esquecemos, jamais.

(Postado em 21/09/2011; colaboração de Wado Motta)
Só duas mamonas!

Aconteceu com 3 meninos (dois de meus irmãos e um primo) que sempre brincavam na beira da linha, próximo à estação Pinheiros do ramal da Sorocabana, que margeia o rio Pinheiros.

Certa vez, vendo a máquina "verdona" (pela descrição da loco, pode ser uma manobreira Cooper Bessemer) fazendo manobras próximo da estação, um deles atirou mamonas ("só duas mamonas", afirmou) na máquina, atingindo o maquinista, que parou e deu ré no trem; nesse meio tempo, os meninos correram para casa, perseguidos pelo ajudante, que anotou o número da casa onde entraram os meninos.

Poucas horas depois o pai dos meninos teve de comparecer à 14ª delegacia, que na época era próxima do local, para explicar ao delegado a "peraltice" dos meninos, pois o ajudante que anotara o número da casa, retornou e denunciou ao chefe da estação que os meninos estavam apedrejando o trem.

"Naqueles tempos", por volta de 1959, dava-se mais importância ao trabalho bem como à educação com as pessoas, e casos como este eram sempre "corrigidos"...

(Postado em 21/09/2011; colaboração de Wado Motta)
Portal do Trem: Um site de ferromodelistas para ferromodelistas